A hora e a vez da Lua, ensaio de teoria do conhecimento por Marcos Cordiolli

Publicação – Astronomia
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O pequeno ensaio “A hora e a vez da Lua” propõe a categorização da Lua como planeta. Portanto, o complexo Lua-Terra seria definido com um sistema binário de planetas. É um exemplo de exercício de conceituação em teoria do conhecimento e de prática de epistemologia. 

A hora e a vez da Lua

Marcos Cordiolli

“Plutão foi rebaixado da condição de planeta” – essa notícia ganhou as manchetes dos principais jornais do mundo no final de agosto de 2006. Uma nova categorização dos corpos celestes está em vigor.

A categorização planetária expõe uma regra básica, enunciada por vários autores (talvez o mais conhecido seja Thomas Kuhn em sua obra “A Estrutura das Revoluções Científicas”), de que a ciência estabelece um sistema de classificação e conceituação em função das evidências da realidade. Sendo assim, estes sistemas devem ser revistos diante da descoberta de novas evidências ou da formulação de outras teorias que exponham as suas limitações. Regra que raramente é observada no cotidiano e nas escolas, posto que  a sociedade e a natureza (e as representações que fazemos de seus diversos aspectos) são tomadas como naturalizadas e imutáveis.

Terra e lua vista de marte

 

O anúncio da criação de mais uma categoria de corpos celestes (os planetas-anões) com a inclusão de Plutão e de mais dois asteróides (estes promovidos desta condição para a de planetas-anões), embora não altere a nossa vida, é uma boa lição da forma com compreendemos e aprendemos a sociedade e a natureza.

A posição dos astrônomos, no entanto, parece ser de prevenção. Novos corpos celestes devem ser descobertos além de Plutão e, ao que parece, com proporções semelhantes a este atual planeta-anão. Também resolve os problemas de Ceres e Xena (nome provisório do corpo UB313), até agora incomodamente classificados como asteróides. O problema agora passa a ser Caronte, o satélite de Plutão. Talvez em alguns anos Plutão e Caronte possam ser classificados como um sistema binário de planetas-anões, com base em duas categorias utilizadas para definir sistemas binários e trinários de estrelas: a pequena proporção de massas entre ambos e a implicação mútua de suas órbitas.

Resolvida esta questão, provisoriamente, os astrônomos talvez possam se dedicar a uma outra: qual seria de fato a categoria ocupada de Júpiter – “planeta” que emite mais energia que recebe? Como único representante desta condição, não deveria ser agrupado em alguma outra nova classe entre os planetas e as estrelas? Ou ainda, um tipo peculiar de estrela?

Uma outra questão também pode ser exposta, neste momento, ainda mais subjetiva: o antropocentrismo. Nos primórdios da astronomia, a Terra ocupou o centro das representações do universo (sistema geocêntrico) e posteriormente o Sol (sistema heliocêntrico). Os recursos tecnológicos e as teorias do século XX permitiram a construção de uma representação do universo em que a Terra e o Sistema Solar ocupam uma posição secundária na Via Láctea e no Grupo Local (uma espécie de continente que agrupa uma série de galáxias).

É possível que, quanto mais longe se enxergue, menos se veja o que está próximo. E assim, uma proposição, hoje marginal, deveria ser analisada com mais cuidado:  a que revisa o conceito da Lua como satélite e a sua possível “promoção”  à condição de planeta. Assim, o complexo Terra-Lua passaria ser designado como um sistema binário de planetas.

Posso arrolar, nesse sentido, os seguintes argumentos: a Terra é um dos menores planetas do Sistema Solar, sendo a Lua é segundo maior satélite deste complexo, uma das duas menores proporções entre massas de planeta-satélite – a outra seria justamente de Plutão e Caronte. A Lua também oferece a maior alteração proporcional de um satélite sobre a órbita em torno do Sol de seu respectivo planeta. Tanto é que o eixo da nossa órbita planetária não passa pelo seu centro, mas sim num ponto proporcional entre a Terra e a Lua.

Descendo de nosso pedestal antropocêntrico poderíamos considerar a Lua o nono planeta do Sistema Solar, formando um sistema binário com a Terra. Poderíamos amanhecer num novo dia – em que nada mudou – mas habitaríamos um sistema binário de planetas mostrando que, a natureza, e nós mesmos, nem sempre somos o que acreditávamos ser.

Marcos Cordiolli

É historiador (UFPR), mestre em educação (PUC-SP), professor universitário e autor de artigos em diversas áreas. Contato: marcos.cordiolli@uol.com.br

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Sobre Marcos Cordiolli
Marcos Cordiolli é graduado em História (UFPr, 1988) e mestre em Educação: história e filosofia da educação (PUC-SP, 1997). É professor universitário de graduação (desde 1994), de especialização latu senso (em mais 20 IES); de mestrado (em uma IES); atua na qualificação docente (desde 1994 e prestou serviços para mais 50 redes públicas e dezenas de escolas particulares em 18 estados); É consultor em gestão do trabalho pedagógico e proposições curriculares na Educação Básica (com serviços prestados para dezenas de instituições) e Superior (com trabalhos prestados para mais de 20 IES); É palestrante e conferencista (atuou em mais 300 eventos); consultor técnico de publicações didáticas (prestou serviços para mais de uma dezena de editoras) e de sistemas de ensino (prestou serviços para a maioria dos grandes empresas do país); É consultor pedagógico na área de Educação Corporativa (prestou serviços para empresas na área de refino de petróleo e montadoras automotivas). Publicou artigos, livros e materiais didáticos (na área de história, filosofia e geografia para Ensino Fundamental e Médio; teoria curricular e políticas educacionais para a Educação Superior). É cineasta. Produtor Associado do filme O Sal da Terra (Brasil, 2008) de Eloi Pires Ferreira. Diretor de Produção (com Elói Pires Ferreira) de Conexão Japão (Brasil, 2008) de Talício Sirino. Produtor Executivo de Curitiba Zero Grau (Tigre Filmes e Labo). Foi assessor técnico da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (2010). Foi Consultor ad hoc da relatoria do Plano Nacional de Educação na Câmara dos Deputados Foi assessor da diretoria da Agência Nacional do Cinema – Ancine. É Secretário de Cultura da Cidade de Curitiba na condição de Presidente da Fundação Cultural de Curitiba. É presidente do Fórum dos Gestores Municipais de Cultura das Cidades com mais de 500 mil habitantes. É autor de Currículo Escolar: Teorias & Práticas (Editora Melo) É autor de Sistema de ensino e políticas educacionais (Editora IBPEX) Contato: email: marcos.cordiolli@gmail.com fone: +55 (41) 3213-7506 Veja mais: Acompanhe as minhas atividades no Twitter: @MarcosCordiolli Visite o meu currículo na Plataforma Lattes do CNPq Conheça a minha página no Facebook

One Response to A hora e a vez da Lua, ensaio de teoria do conhecimento por Marcos Cordiolli

  1. Mas, querido Marcos, o que seria da raça humana se não fosse essa particularidade chamada antropocentrismo? Nunca nos distanciamos dela, sempre olhando para nossos próprios umbigos. O sistema passou de antropocêntrico para heliocêntrico, mas, na alma humana, nada mudou. Muito legal seu texto! :¬)

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