As redes sociais como ponte entre as famílias e a escola

Imprensa – Entrevista – Marcos Cordiolli


Gazeta do Povo, Vida e cidadania, Publicado em 22/05/2011 | Brisa Teixeira, especial para a Gazeta do Povo

Precisamos de pontes e não de muros

Marcos Cordiolli, mestre em Educação.

Promover a interação entre pais, estudantes e professores é uma tarefa urgente, necessária e que pode ter a tecnologia – ainda vista como “bicho-papão” por muitos educadores – como aliada. A opinião é do professor Marcos Cordiolli, mestre em educação, que acaba de lançar o livro Currículo escolar: teorias e práticas (Editora Melo).

Segundo o educador, os estudantes de hoje são pessoas hiperconectadas. Essa característica, associada ao processo da convergência das mídias, dificulta a comunicação com os professores, que se sentem estrangeiros no mundo digital. Mas Cordiolli acredita que é possível construir uma ponte, onde hoje há essa barreira, a partir da incorporação de novos recursos pedagógicos.

Divulgação / Entrevista

O professor abordou o assunto na 18.ª Educar/Educador (Feira e Congresso Internacional de Educação), encerrada neste sábado, em São Paulo, e falou também com a reportagem da Gazeta do Povo. Acompanhe os principais trechos da entrevista:

Você defende que as novas tecnologias estão aproximando professores e famílias. Como esse processo está ocorrendo?

As tecnologias da informação e comunicação dispõem de ferramentas fundamentais que podem aproximar de forma inédita os professores e os pais. Considerando as condições da escola e dos professores, os pais podem acessar as informações básicas do desenvolvimento do processo pedagógico e pode-se até promover situações em que a família possa participar ativamente das ações educativas. E a escola pode dar um passo a mais, envolvendo os pais em atividades pedagógicas, contribuindo, inclusive, para reaproximar pais e filhos em famílias com pouca interação. Por outro lado, os pais podem conhecer mais de perto as atividades escolares de seus filhos e participar mais diretamente de suas vidas. Aproximar e promover a interação entre pais e professores é uma tarefa urgente e necessária.

Qual é a responsabilidade da família nessa interação da escola com a tecnologia?

São duas as situações: a de familiares que possuem qualificação para as vias digitais e aqueles que são excluídos ou rejeitam esta inclusão. Acho que em ambos os casos as escolas devem adotar posturas pedagógicas em relação aos familiares, orientado-os para ações de acompanhamento dos filhos e estimulando-os a leituras críticas e de segurança em relação aos conteúdos e as interações nas vias digitais da internet.

A responsabilidade é da escola ou da família em alertar sobre os perigos do mundo virtual?

A educação para o uso consciente da internet é um problema central de nosso tempo. Por um lado temos o problema de segurança em relação a crimes que têm como alvos crianças e adolescentes. Por outro, as próprias crianças e adolescentes podem promover ações danosas, das quais o cyberbulling é uma das manifestações. A escola precisa adotar ações para inibir isto e neste campo já são realizadas ações importantes e significativas. As famílias também já se preocupam muito com isso. É necessário, portanto, que escolas, ONGs e o governo desenvolvam programas para preparar os pais para esta tarefa. E, por último, a sociedade e governo também precisam adotar iniciativas para o uso consciente e seguro da internet.

Como os pais podem orientar os filhos?

Os pais que possuem canais de diálogo com os filhos estão em melhor condição de orientá-los nestes processos complexos e dinâmicos. Os familiares também precisam frequentar as mesmas vias digitais que as crianças e os jovens, ao menos para conhecê-las e obter capacidade de orientação e interação. É importante também agir com tolerância para compreender as diferentes fases de relacionamento que crianças e jovens estabelecem com as vias digitais, que são intensas, porém se modificam constantemente. A proibição ou a censura são os piores caminhos e devem ser descartados. É preciso construir pontes ao invés de muros.

Como deve ser a escola ideal para atender aos anseios das “crianças digitais”?

As pessoas hiperconectadas e a convergência das mídias são dois processos contemporâneos que impactam em grandes proporções a escola. Estes dois processos estabelecem uma barreira e uma ponte entre professores e estudantes. Os estudantes desenvolvem qualificações que nem todos os professores dominam, ao menos, nas mesmas proporções, acessando diversas vias de busca de informações e de círculos virtuais de discussões. Mas sobre esta barreira uma ponte pode ser lançada, pois novos recursos pedagógicos podem ser incorporados às ações educativas. Os professores e as escolas precisam incorporar os conteúdos da internet, as ferramentas digitais e as redes sociais às práticas cotidianas, dotando-os de sentido e objetivos pedagógicos.

Que recursos pedagógicos são esses?

As tecnologias da informação e da comunicação gradativamente estão integrando os processos pedagógicos e podem contribuir para a democratização da gestão e a promoção da interação entre a gestão, os professores e as famílias dos educandos. Em relação às práticas pedagógicas, a primeira tarefa importante é preparar os estudantes para navegar de forma seletiva entre os conteúdos disponíveis em grandes quantidades e com ampla diversidade, aprendendo a verificar os sites confiáveis, a origem das informações e a organizá-los para o seu próprio uso. Enquanto isso, as redes sociais podem se constituir em instrumentos pedagógicos para a motivação, mobilização e exercício crítico em atividades colaborativas de aprendizagem.

Há novas propostas curriculares surgindo?

Os limites disciplinares que adotamos nas escolas estão em crise, mas as escolas e os professores têm encontrado caminhos criativos e de sucesso. Novas propostas curriculares estão nascendo e novas formas de organização das práticas pedagógicas em sala de aula estão surgindo. A dinâmica das vias digitais da internet impõe questões e formas de aprendizagem distintas daquelas adotadas tradicionalmente em currículos escolares e nos planejamentos dos professores. As linguagens, principalmente das línguas nacional e das artes, requerem a introdução urgente da aprendizagem de outros gêneros utilizados intensamente na internet. É necessário também a imediata introdução da aprendizagem da linguagem audiovisual nas escolas. Por outro lado, os instrumentos digitais e as redes sociais permitem ampliar as condições de aprendizagem colaborativas, a organização de atividades integradas, as práticas de pesquisa e a socialização dos conhecimentos produzidos pelos estudantes.

Que soluções vêm sendo encontradas para diminuir a resistência dos professores às novas tecnologias?

Nós, os professores, somos como que estrangeiros no mundo digital de nossas crianças e jovens. Mas, mesmo como estrangeiros, podemos aprender e buscar a sua inclusão. Muitos professores e escolas têm conseguido conquistas constantes e importantes e os resultados são muito animadores. Por uma ou duas gerações vamos conviver com situações desproporcionais. Mas é importante respeitar os ritmos dos professores para não queimar etapas e nem atropelar processos.

Publicações:

  • Gazeta do Povo
  • Gazeta de Maringá
  • Jornal de Londrina
  • Blog Lado B
  • Blog Claudia Wasliwescz

 


Marcos Cordiolli nas redes sociais 
                 
    

 

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Sobre Marcos Cordiolli
Marcos Cordiolli é graduado em História (UFPr, 1988) e mestre em Educação: história e filosofia da educação (PUC-SP, 1997). É professor universitário de graduação (desde 1994), de especialização latu senso (em mais 20 IES); de mestrado (em uma IES); atua na qualificação docente (desde 1994 e prestou serviços para mais 50 redes públicas e dezenas de escolas particulares em 18 estados); É consultor em gestão do trabalho pedagógico e proposições curriculares na Educação Básica (com serviços prestados para dezenas de instituições) e Superior (com trabalhos prestados para mais de 20 IES); É palestrante e conferencista (atuou em mais 300 eventos); consultor técnico de publicações didáticas (prestou serviços para mais de uma dezena de editoras) e de sistemas de ensino (prestou serviços para a maioria dos grandes empresas do país); É consultor pedagógico na área de Educação Corporativa (prestou serviços para empresas na área de refino de petróleo e montadoras automotivas). Publicou artigos, livros e materiais didáticos (na área de história, filosofia e geografia para Ensino Fundamental e Médio; teoria curricular e políticas educacionais para a Educação Superior). É cineasta. Produtor Associado do filme O Sal da Terra (Brasil, 2008) de Eloi Pires Ferreira. Diretor de Produção (com Elói Pires Ferreira) de Conexão Japão (Brasil, 2008) de Talício Sirino. Produtor Executivo de Curitiba Zero Grau (Tigre Filmes e Labo). Foi assessor técnico da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (2010). Foi Consultor ad hoc da relatoria do Plano Nacional de Educação na Câmara dos Deputados Foi assessor da diretoria da Agência Nacional do Cinema – Ancine. É Secretário de Cultura da Cidade de Curitiba na condição de Presidente da Fundação Cultural de Curitiba. É presidente do Fórum dos Gestores Municipais de Cultura das Cidades com mais de 500 mil habitantes. É autor de Currículo Escolar: Teorias & Práticas (Editora Melo) É autor de Sistema de ensino e políticas educacionais (Editora IBPEX) Contato: email: marcos.cordiolli@gmail.com fone: +55 (41) 3213-7506 Veja mais: Acompanhe as minhas atividades no Twitter: @MarcosCordiolli Visite o meu currículo na Plataforma Lattes do CNPq Conheça a minha página no Facebook

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