O monge shaolin e a capoeira num especial diálogo identitário, por Marcos Cordiolli

Eu, aos 10 anos, vivia submerso nas séries estadunidenses que começavam, nos anos 1970, a inundar a TV brasileira. E, como muitos dos meus contemporâneos de adolescência, era devoto das histórias do monge Shaolin Kwai Chang Caine no seriado Kung Fu. Um raro amigo apresentou, décadas depois, uma explicação sociológica para o seriado, que não vou ocupá-los com ela agora…
Um dos episódios, no entanto, ficou gravado na minha memória assim como diversas passagens do telefilme piloto, em particular a cena do garoto que esperou por  dias sob chuva por uma derradeira oportunidade de entrar no tempo shaolin… (Coincidência ou não, foi mesma cena que registrou o amigo que três décadas depois apresentou a interpretação sociológica da série).
O episódio que marcou o garoto de 10 anos é aquele em que o personagem chinês observou a chegada de um negro vestido elegantemente. Este mesmo negro é provocado com comentários racistas e agredido por dois brancos. O negro sem esforço, como o chinês fazia reincidentemente nos outros episódios, espancou os dois bancos usando movimentos marciais que eu já conhecia…
O chinês, profundamente impressionado, se aproximou do negro e perguntou em que local ele havia aprendido luta tão perfeita: se numa escola ou num templo.
O negro, ignorando a devoção do chinês, diz apenas que aprendeu na senzala, como escravo. E segue o seu caminho. Um personagem brasileiro lutando capoeira num seriado estadunidense foi marcante.
Esta semana compareci à Celebração da Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO com a premiação, pelo Iphan, aos Mestres de Capoeira no Paraná. Um evento emocionante por desvelar à cultura invisível do nosso povo, em particular dos africanos que cá vieram desterrados e escravizados.
A devoção de  Kwai Chang Caine não saia da minha cabeça, a emoção do menino, se confundia com a política, e a convicção da política se reencontrava com a sua gênese na emoção do menino. Afinal lá estava um dos divisores de identidade, no meio do arrebatamento do estrangeiro, os lampejos das imagens da cultura popular dos praticantes de copeira numa das praças do centro da cidade, puxavam e ancoravam a identidade local no mar da globalização.
A Cultura Viva, segregada e discriminada, é parte constituinte de nossa alma identitária. E ambas viverão, em dimensão e tempo, na proporção em que se alimentarem mutuamente.
Celebração da Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade - UNESCO com a premiação, pelo Iphan, aos Mestres de Capoeira no Paraná. Na Cinemateca de Curitiba. Foto de Sandro Luis Fernandes.

Celebração da Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade – UNESCO com a premiação, pelo Iphan, aos Mestres de Capoeira no Paraná. Na Cinemateca de Curitiba. Foto de Sandro Luis Fernandes.

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Sobre Marcos Cordiolli
Marcos Cordiolli é graduado em História (UFPr, 1988) e mestre em Educação: história e filosofia da educação (PUC-SP, 1997). É professor universitário de graduação (desde 1994), de especialização latu senso (em mais 20 IES); de mestrado (em uma IES); atua na qualificação docente (desde 1994 e prestou serviços para mais 50 redes públicas e dezenas de escolas particulares em 18 estados); É consultor em gestão do trabalho pedagógico e proposições curriculares na Educação Básica (com serviços prestados para dezenas de instituições) e Superior (com trabalhos prestados para mais de 20 IES); É palestrante e conferencista (atuou em mais 300 eventos); consultor técnico de publicações didáticas (prestou serviços para mais de uma dezena de editoras) e de sistemas de ensino (prestou serviços para a maioria dos grandes empresas do país); É consultor pedagógico na área de Educação Corporativa (prestou serviços para empresas na área de refino de petróleo e montadoras automotivas). Publicou artigos, livros e materiais didáticos (na área de história, filosofia e geografia para Ensino Fundamental e Médio; teoria curricular e políticas educacionais para a Educação Superior). É cineasta. Produtor Associado do filme O Sal da Terra (Brasil, 2008) de Eloi Pires Ferreira. Diretor de Produção (com Elói Pires Ferreira) de Conexão Japão (Brasil, 2008) de Talício Sirino. Produtor Executivo de Curitiba Zero Grau (Tigre Filmes e Labo). Foi assessor técnico da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (2010). Foi Consultor ad hoc da relatoria do Plano Nacional de Educação na Câmara dos Deputados Foi assessor da diretoria da Agência Nacional do Cinema – Ancine. É Secretário de Cultura da Cidade de Curitiba na condição de Presidente da Fundação Cultural de Curitiba. É presidente do Fórum dos Gestores Municipais de Cultura das Cidades com mais de 500 mil habitantes. É autor de Currículo Escolar: Teorias & Práticas (Editora Melo) É autor de Sistema de ensino e políticas educacionais (Editora IBPEX) Contato: email: marcos.cordiolli@gmail.com fone: +55 (41) 3213-7506 Veja mais: Acompanhe as minhas atividades no Twitter: @MarcosCordiolli Visite o meu currículo na Plataforma Lattes do CNPq Conheça a minha página no Facebook

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